O ano de 2018 é histórico para mim em todos os sentidos. E no mês de abril, no mês do meu aniversário é que reapareço. Com a vida bastante corrida, é verdade, por um motivo que agora, apenas agora soa tão simples, venho aqui dizer que esse semestre me formarei e tenho vindo tão pouco aqui por culpa única do TCC, culpa dele também a distância do Whatsapp, tudo isso para que após 4 anos frequentando a universidade, possa finalmente me formar.
Nasci num bairro periférico de Salvador, criado por mãe solteira, que vinda do interior da Bahia veio trabalhar na capital em busca de uma melhora de vida, desde os 16 anos minha mãe trabalhou em casa de família para se ajudar e ajudar minha avó, nunca teve a chance de estudar durante a adolescência e se dedicou em apenas aprender a cozinhar para assim, tentar de maneira autodidata ter uma profissão, a de cozinhar. Minha conheceu meu pai e me concebeu aos 35 anos de idade, meu pai disse que me reconheceria como filho apenas se minha mãe me entregasse para que ele me criasse, minha mãe não aceitou e com isso passou a exercer as duas funções (a de pai e mãe). Não tive referência masculina para seguir dentro de casa e hoje, dou graças a deus por isso. Evangélica, conservadora e lutadora, minha mãe me criou com muito rigor, desde cedo me levava a igreja e sempre fazendo o possível para que tivesse a mínima dignidade que um ser humano precisa, com todas as dificuldades, nunca deixou faltar o pão, o arroz e o feijão dentro de casa, correu atrás de uma bolsa para que estudasse durante o ensino fundamental no colégio adventista, não conseguiu uma bolsa integral, mas conseguiu uma parcial, que apertava o salário, mas dava para pagar. Tudo isso para que tivesse pelo menos uma boa qualidade no ensino básico e só não estudei o ensino médio num colégio da qualidade do adventista, por ter falhado com minha mãe, sim, eu falhei, fui expulso do colégio, não fui um adolescente fácil e por merecer, fui expulso e consequentemente, perdi a bolsa de estudos.
Não tinha a mínima da noção da importância que aquilo teria para mim ou do quanto significava para minha mãe me ver ter a chance que ela não teve, minha mãe chorou, eu chorei. Tive que estudar em colégio público, coisa que minha mãe nunca quis, por saber que a qualidade do ensino público não era referência como já foi outrora na história do nosso país, minha mãe sempre teve muito medo das influências que se tinham nos colégios públicos, ela conhecia histórias e temia muito pelas que lhes foram contadas.
Há alguns meses de me formar, vejo o caos político que tomou conta do país, faltando alguns meses para me formar em uma das melhores e mais tradicionais universidades da cidade, após adquirir um pouco mais de conhecimento, aquele que é para além do que é dito na televisão brasileira, vejo a notícia da prisão do ex-presidente Lula, pessoa pública pelo qual tenho admiração e respeito por tudo que fez por esse país. Se cometeu crime? Que se prove e que se pague. Mas não posso deixar de dizer que sou grato pela perspectiva dada a um negro, pobre, favelado, único da rua onde mora prestes a ser graduado, graças a inclusão concedida para que pessoas como eu pudessem cursar uma universidade e ter um diploma. Lula não está acima da lei, mas o estado de exceção também não pode está acima da lei e nada mais característico num estado de exceção que a mesma Cármen Lúcia, presidente do STF que deu o voto de minerva para não conceder o habeas corpus a Lula, foi a mesma a conceder o voto de minerva pelo não afastamento do senador Aécio Neves.
Quem me conhece, sabe das minhas posições políticas, de onde vim diz muito bem sobre quem sou, nunca fui e nunca serei petista, não tenho filiação partidária e nem sou contrário a investigação/condenação ao ex-presidente, sou contrário ao momento político e judiciário de exceção que nos assola. Defenderam o impeachment de uma presidente eleita com base em interesses meramente políticos e individuais, o discurso era de "primeiro a gente tira a Dilma, depois o Temer e depois o resto". As investigações correram e nada contra a presidente afastada, o atual presidente envolvido em vários escândalos e nada se fala, um ministro foi pego em gravações falando em "acordo com o supremo, com tudo" tramando o afastamento da presidente eleita e ainda há quem reclame quando se diz que foi golpe, como se houvessem dúvidas.
A classe média e as elites brasileiras em sua maioria, são as maiores escórias deste país e não adianta dizer "eu sou pobre e não vejo nenhum problema nisso". Meu bem, me deixa desenhar pra você, existe uma ENORME diferença entre ser pobre, morar em apartamento, longe da periferia e ter carro (ainda que popular) na garagem. Ser pobre, morar na favela onde o estado não chega, crescer vendo troca de tiro entre gangues rivais, ter que pegar ônibus cheio pra ir estudar e na maioria dos casos ter que deixar de estudar pra trabalhar e ajudar a mãe nas despesas da casa é uma perspectiva bem diferente. Estudar história faz bem, começa pesquisando a história de como surgiu as favelas, talvez ajude.
Toda minha solidariedade ao ex-presidente. Quem viveu as perspectivas que eu vivi antes do seu governo, sabe e viveu a diferença. Cometeu muitos erros, escolheu e se cercou de equívocos e hoje paga por isso, acompanhou de maneira errônea as políticas econômicas e sociais e o maior legado foi diminuir a pobreza, tirar milhões da linha da miséria, conceder moradia a maioria que não tinha, criar universidades e conceder espaço ao povo preto e pobre, que jamais achou que teria a chance de ingressar na universidade. Que o momento político não venham nos abater, pois os que conseguiram entrar na universidade por conta das políticas sociais do seu governo através do prouni e do fies como eu, se formam agora. Alguns poucos já se formaram e vão ocupar os espaços de poder que nos cabe e aí sim, conseguiremos uma virada político/social nessa escória de páis.
Um comentário:
👏👏👏👏 show!
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